{"id":8407,"date":"2019-04-05T00:00:00","date_gmt":"2019-04-05T04:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/old.fredlopes.com.br\/2019\/04\/05\/vivendo-sem-numeros-2\/"},"modified":"2019-04-05T00:00:00","modified_gmt":"2019-04-05T04:00:00","slug":"vivendo-sem-numeros-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/backup.fredlopes.com.br\/index.php\/2019\/04\/05\/vivendo-sem-numeros-2\/","title":{"rendered":"Vivendo sem n\u00fameros"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vamos pensar um pouco agora sobre o que \u00e9 matem\u00e1tica atrav\u00e9s de uma tribo ind\u00edgena do Brasil, composta de pouco mais de trezentos e cinquenta membros: os <a title=\"Povos Ind\u00edgenas do Brasil: Pirah\u00e3s\" href=\"http:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/povo\/piraha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pirah\u00e3s<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter decoded\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img.socioambiental.org\/d\/226399-1\/piraha_1.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Pirah\u00e3s<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria que vamos contar \u00e9 bastante conhecida de linguistas de todo o mundo. Em 1977, o ent\u00e3o mission\u00e1rio, hoje linguista de fama internacional, Daniel Everett, veio dos Estados Unidos ao Brasil para realizar a tarefa nada original de cristianizar alguns \u00edndios. Em suas andan\u00e7as pela Amaz\u00f4nia, Everett se deparou com uma tribo ind\u00edgena que vivia \u00e0s margens do rio Maici. Eles eram conhecidos como pirah\u00e3s, um grupo bastante isolado do restante da popula\u00e7\u00e3o local. Everett resolveu se estabelecer, com toda a fam\u00edlia, entre eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o tempo e a conviv\u00eancia, Everett foi percebendo uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas interessantes da tribo. Eles n\u00e3o possu\u00edam mitos de cria\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se lembravam de ancestrais anteriores a seus av\u00f3s. Sua l\u00edngua n\u00e3o contava com palavras para cores e, o que \u00e9 mais importante, sua gram\u00e1tica contrariava as teorias do linguista e ativista pol\u00edtico norte-americano Noam Chomsky, talvez o intelectual mais influente de todo o mundo. Esse \u00e9 o ponto que torna mundialmente famoso esse pequeno grupo de pessoas: est\u00e3o no centro de um longo, antigo e furioso debate sobre as origens da linguagem humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que nos interessa aqui, no entanto, \u00e9 uma outra descoberta fundamental de Everett: os pirah\u00e3s n\u00e3o t\u00eam palavras para n\u00fameros. Chegam, no m\u00e1ximo, a utilizar uma \u00fanica palavra, &#8216;h\u00f3i&#8217;, para indicar &#8216;pouco&#8217; ou &#8216;pequeno&#8217;. Uma, duas ou tr\u00eas pedras na m\u00e3o s\u00e3o &#8216;h\u00f3i&#8217;. Se forem bem pequenas, um punhado de vinte delas tamb\u00e9m s\u00e3o &#8216;h\u00f3i&#8217;. Entre eles, a no\u00e7\u00e3o de quantidade parece inexistente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisadores e antrop\u00f3logos de todas as \u00e1reas e de todo o mundo t\u00eam testado a paci\u00eancia dos pirah\u00e3s com in\u00fameras pesquisas que comprovam, sem sombra de d\u00favida, que eles n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o contam, como tamb\u00e9m n\u00e3o se interessam em aprender a contar. Nem mesmo apenas um, dois, tr\u00eas, como os \u00edndios xet\u00e1s, tamb\u00e9m da Amaz\u00f4nia. Os pirah\u00e3s s\u00e3o um povo que n\u00e3o possui aritm\u00e9tica, m\u00ednima que seja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, livros e mais livros de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica espalham a ideia de que a no\u00e7\u00e3o de contagem \u00e9 universal, que a no\u00e7\u00e3o de n\u00famero \u00e9 algo gen\u00e9tico. Outros pesquisadores afirmam ainda que a marca distintiva da humanidade \u00e9 sua capacidade de fazer matem\u00e1tica. E nos perguntamos: o que, afinal, \u00e9 matem\u00e1tica para esses autores?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como em toda pesquisa antropol\u00f3gica, baseada na observa\u00e7\u00e3o detalhada e na coleta extensa de dados, h\u00e1 quem discorde das teses de Everett. At\u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o seja definitivamente esclarecida (se isso existe em antropologia e lingu\u00edstica), ficamos com a sugest\u00e3o de que, afinal, a matem\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica comum \u00e0 esp\u00e9cie humana, mas algo local, temporal, social, como tudo o mais na cultura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vamos pensar um pouco agora sobre o que \u00e9 matem\u00e1tica atrav\u00e9s de uma tribo ind\u00edgena do Brasil, composta de pouco mais de trezentos e cinquenta membros: os pirah\u00e3s. A hist\u00f3ria que vamos contar \u00e9 bastante conhecida de linguistas de todo o mundo. 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