{"id":8296,"date":"2023-10-28T00:00:00","date_gmt":"2023-10-28T04:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/old.fredlopes.com.br\/arte\/minimalismo\/"},"modified":"2023-10-28T00:00:00","modified_gmt":"2023-10-28T04:00:00","slug":"minimalismo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/backup.fredlopes.com.br\/index.php\/arte\/minimalismo\/","title":{"rendered":"minimalismo"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-group has-global-padding is-layout-constrained wp-container-core-group-is-layout-f789337c wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Como \u00e9 de praxe, conhecer a origem da palavra pode lan\u00e7ar alguma luz nos primeiros passo da caminhada, como uma fr\u00e1gil lanterna apontada para uma longa estrada que se trilha pela noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minimalismo vem de <em>minimus<\/em>, o superlativo da palavra latina <em>parvus<\/em> &#8211; <em>pequeno, pouco<\/em>. Significa, por isso,&nbsp;<em>o que h\u00e1 de mais pequeno, o que h\u00e1 de menor<\/em>. Em outras palavras, um grau acima do nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por mais po\u00e9tica que seja a defini\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um qu\u00ea de essencial nela. Minimalismo \u00e9 um&nbsp;<em>ismo<\/em> que aponta para um fazer\/realizar\/viver com o m\u00ednimo poss\u00edvel, seja materialmente, seja metodologicamente. Minimalismo, podemos resumir, \u00e9 uma doutrina que prega a redu\u00e7\u00e3o radical dos meios para se atingir os fins. \u00c9 uma aposta no virtuosismo que faz muito com pouco, que realiza bastante com quase nada. \u00c9 tamb\u00e9m uma postura econ\u00f4mica, como veremos, e uma tend\u00eancia que vem se espalhando com outras nomenclaturas pelos quatro cantos da vida digital.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Artes visuais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O minimalismo mais conhecido \u00e9 o das artes visuais. Podemos mesmo dizer que \u00e9 nas artes que ele tem in\u00edcio. Ou ainda, que tomou consci\u00eancia de si, dando corpo a uma tend\u00eancia de a\u00e7\u00e3o e pensamento at\u00e9 bastante antiga.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/malevich-white_on_white.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-146\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Malevitch &#8211; Quadrado branco sobre fundo branco (1915)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imagem acima, o quadro <em>Quadrado branco sobre fundo branco<\/em>, do pintor russo Kasimir Malevich (1878-1935), \u00e9 uma obra emblem\u00e1tica do movimento art\u00edstico conhecido como <em>suprematismo,<\/em>&nbsp;centrado na explora\u00e7\u00e3o das capacidades expressivas das&nbsp;formas geom\u00e9tricas b\u00e1sicas, como o c\u00edrculo e o quadrado, e nas cores prim\u00e1rias azul, vermelho, amarelo, branco e preto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m em 1915, Malevich pinta o&nbsp;<em>Quadrado preto sobre fundo branco<\/em>, quadro que, mesmo sem a presen\u00e7a de sua representa\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica, pode ser facilmente imaginado&#8230; O suprematismo, como um dos movimentos modernistas do in\u00edcio do s\u00e9culo 20, \u00e9 um movimento minimalista. Em verdade, \u00e9 sua express\u00e3o mais s\u00f3lida: restri\u00e7\u00e3o de meios para atingir certos fins. No caso, fins expressivos, como se, em sua pesquisa, o artista procurasse descobrir quais s\u00e3o os fundamentos de sua arte, as verdadeiras ra\u00edzes da express\u00e3o pl\u00e1stica. Wassily Kandinsky (1866-1944) e Piet Mondrian (1872-1944) s\u00e3o outros dois conhecidos artistas que possuem parte de sua obra ditada pelos c\u00e2nones do minimalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A arte do s\u00e9culo XX tomou muitas trilhas, a maioria delas est\u00e9reis, mas o minimalismo n\u00e3o foi uma delas. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma postura ou posi\u00e7\u00e3o conceitual que pode ser encontrada at\u00e9 mesmo em arte figurativa tradicional, como nas obras do artista vietnamita&nbsp;Nguyen Thanh Binh (1954-).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"621\" height=\"617\" src=\"https:\/\/fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Nguyen.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-153\" srcset=\"https:\/\/backup.fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Nguyen.jpg 621w, https:\/\/backup.fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Nguyen-300x298.jpg 300w, https:\/\/backup.fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Nguyen-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nguyen Thanh Binh, Bailarina.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra de Nguyen Bihn possui tamb\u00e9m uma caracter\u00edstica fundamental do minimalismo visual: o apre\u00e7o pela cor branca, que ao mesmo tempo representa tanto o nada (a tela intocada), como o tudo &nbsp;(a mistura de todas as cores).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contemplando a imagem anterior, percebemos que, al\u00e9m de conte\u00fado puramente pict\u00f3rico, o artista nos oferece um momento de delicada sensibilidade ao nos apresentar o torso de uma jovem bailarina em descanso. Not\u00e1vel tamb\u00e9m \u00e9 a assinatura vermelha discretamente localizada \u00e0 direita, no topo. Como percebemos, existem graus de minimalismo, desde a fl\u00e9bil emotividade de Malevich \u00e0 pureza espiritual&nbsp;de Bihn.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Escultura<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo depois das artes gr\u00e1ficas, a escultura \u00e9 um dos dom\u00ednios preferidos da express\u00e3o minimalista. O artista norte-americano Sol LeWitt (1928-2007) costuma ser apontado como o principal representante do minimalismo escultural.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/LEWI77_web.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-159\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">LeWitt, Cubos incompletos.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LeWitt, que foi tamb\u00e9m artista pl\u00e1stico e colaborou em cria\u00e7\u00f5es arquitet\u00f4nicas, \u00e9 preferencialmente denominado um&nbsp;artista conceitual. Sobre ele teremos a oportunidade de falar mais um pouco em nossa segunda postagem, quando abordaremos a motiva\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica do minimalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 mesma \u00e9poca de LeWitt, trabalharam Donal Judd (1928-1994) e Robert Morris (1931-), este que, al\u00e9m de escultor, foi um dos criadores da arte perform\u00e1tica. A um passo al\u00e9m da escultura, encontramos o minimalismo em arquitetura, que se expressa tamb\u00e9m com o predom\u00ednio de formas espaciais elementares, como o cubo e o paralelep\u00edpedo, a cor branca e a utiliza\u00e7\u00e3o da luz de forma inteligente, tanto para iluminar quanto para decorar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Arquitetura<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Casa Cubo,&nbsp;do arquiteto brasileiro M\u00e1rcio Kogan (1952-), \u00e9 um exemplo exemplar da arquitetura minimalista, na qual a imagina\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica se expressa atrav\u00e9s da combina\u00e7\u00e3o de elementos estruturais m\u00ednimos, em busca de uma beleza austera e funcional.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"603\" height=\"504\" src=\"https:\/\/fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/mkogan-casacubo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-161\" srcset=\"https:\/\/backup.fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/mkogan-casacubo.jpg 603w, https:\/\/backup.fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/mkogan-casacubo-300x251.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 603px) 100vw, 603px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Marcio Kogan &#8211; Casa Cubo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Portugal, a arquitetura minimal dos premiados irm\u00e3os Manuel e Francisco Aires Mateus representa o que aquele pa\u00eds tem de melhor a oferecer.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"426\" src=\"https:\/\/fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/minimal-aires-mateus.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-164\" srcset=\"https:\/\/backup.fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/minimal-aires-mateus.jpg 640w, https:\/\/backup.fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/minimal-aires-mateus-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Aires Mateus (Portugal), Arquitetura Minimal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio wp-block-paragraph\">O exemplo da arquitetura nos permite acrescentar algumas novas caracter\u00edsticas ao minimalismo: a limpeza, a leveza dos ambientes e a subtra\u00e7\u00e3o do desnecess\u00e1rio para uma vida simples e focada, tema de que nos ocuparemos em nossa terceira postagem.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">M\u00fasica e dan\u00e7a<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio wp-block-paragraph\">Na m\u00fasica, o minimalismo aconteceu mais tarde, ainda que seus princ\u00edpios j\u00e1 estivessem presentes na m\u00fasica do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Foi na d\u00e9cada de 1960, nos Estados Unidos, que artistas longevos como Terry Riley (1935-), Steve Reich (1936-) e Philip Glass (1937-) deram in\u00edcio a minimalismo musical. A grande figura, no entanto, foi John Cage (1912-1992), que n\u00e3o pode ser dito, assim como os outros, um artista exclusivamente minimalista, mas experimental de vanguarda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio wp-block-paragraph\">Animados pelo ideal de buscar o m\u00e1ximo com o m\u00ednimo, ou de encontrar a ess\u00eancia da arte musical, as m\u00fasicas desses artistas nos parecem ruidosas, repetitivas e at\u00e9 mesmo engra\u00e7adas. Aos ouvidos do p\u00fablico, m\u00fasicos minimalistas parecem charlat\u00f5es, buf\u00f5es incapazes de criar uma melodia memor\u00e1vel. Nada mais falso, como podemos verificar pelos dois v\u00eddeos abaixo, nos quais&nbsp;o bal\u00e9, tornado minimalista pela m\u00fasica, predomina.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Philip Glass - Einstein on the Beach\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UK0tzdCRjzc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio wp-block-paragraph\"><em>Einstein on the Beach<\/em>, de Philip Glass, \u00e9 certamente uma daquelas \u00f3peras mais comentadas do que assistidas. Al\u00e9m da m\u00fasica, obsessiva, observe tamb\u00e9m os passos de dan\u00e7a e a onipresente cor branca.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Violin Phase - Steve Reich\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GF479y9Gsr8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption class=\"wp-element-caption\">Steve Reich &#8211; Violin Phase<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Steve Reich, em sua famosa&nbsp;<em>Violin Phase<\/em> (1967), em que um tema simples de violino ocasionalmente defasa consigo mesmo, \u00e9 outra m\u00fasica emblem\u00e1tica do minimalismo musical. As simplicidade dos movimentos repetitivos da bailarina (novamente uma bailarina), o c\u00edrculo no ch\u00e3o, o branco dominante, tamb\u00e9m n\u00e3o deixam de saltar \u00e0 vista.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Literatura<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m a literatura, como esperado, n\u00e3o fica de fora. Surgida de maneira inconsciente com&nbsp;<em>haikais<\/em>&nbsp;no Jap\u00e3o, a literatura minimalista \u00e9 caracterizada pela economia de palavras e faz foco na descri\u00e7\u00e3o da superf\u00edcie das coisas, o aspecto mais tang\u00edvel aos nossos sentidos, o que ocasiona um distanciamento psicol\u00f3gico do autor daquilo que deseja descrever.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A literatura minimalista apoia-se no contexto sugerido e exige uma participa\u00e7\u00e3o ativa do leitor. Um escritor como Ernest Hemingway (1899-1961), ao qual costumam ser atribu\u00eddos de forma esp\u00faria diversos <em>microcontos<\/em>, figuraria em qualquer lista de escritores minimalistas, ainda que o minimalismo n\u00e3o seja a postura preferencial de Hemingway. Raymond Carver (1938-1988), que n\u00e3o se via de forma alguma como minimalista, costuma ser lembrado com frequ\u00eancia nos c\u00edrculos de escrita minimal. Os tr\u00eas microcontos seguintes, de autores renomados, podem dar uma ideia do que trata esse veio do minimalismo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;2 de agosto: a Alemanha declarou guerra \u00e0 R\u00fassia. Nata\u00e7\u00e3o \u00e0 tarde.\u201d &#8211; Franz Kafka (1883-1924)<br><br>\u201cA velha ins\u00f4nia tossiu tr\u00eas da manh\u00e3.\u201d &#8211; Dalton Trevisan (1925-)<br><br>\u201cQuando acordou o dinossauro ainda estava l\u00e1.\u201d &#8211; Augusto Monterroso (1921-2003)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o faz mal notar, mais uma vez, que o microconto \u00e9 apenas uma forma de minimalismo liter\u00e1rio. Restri\u00e7\u00e3o vocabular, proibi\u00e7\u00e3o de frases al\u00e9m de certo tamanho, a descri\u00e7\u00e3o com no m\u00e1ximo um adjetivo e outros procedimentos t\u00e9cnicos caracterizam a escrita minimalista, ainda que o livro da\u00ed produzido resulte em 1000 p\u00e1ginas. O esp\u00edrito do minimalismo liter\u00e1rio pode ser resumido em uma frase:&nbsp;<em>menos palavras, mais impacto<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cinema<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalizando nossa an\u00e1lise, perguntamos: o que \u00e9 cinema minimalista?&nbsp;Seriam sucess\u00f5es de imagens m\u00ednimas, com poucos elementos, brancas e geom\u00e9tricas? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 bem assim. O cinema minimalista \u00e9 executado normalmente por atores e diretores que n\u00e3o se declaram minimalistas, nem sequer se d\u00e3o conta de que est\u00e3o criando uma obra de arte minimal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Steven Spielberg criou uma obra de arte minimal no filme&nbsp;<em>Encurralado<\/em> (Duel, 1971), em que um s\u00e1dico motorista de caminh\u00e3o persegue e tenta enlouquecer, sem nenhum motivo aparente, um inocente vendedor ambulante.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"350\" src=\"https:\/\/fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/duel-spielberg.jpg\" alt=\"Cena de Encurralado\" class=\"wp-image-173\" srcset=\"https:\/\/backup.fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/duel-spielberg.jpg 600w, https:\/\/backup.fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/duel-spielberg-300x175.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Steven Spielberg &#8211; Encurralado<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme gira ao redor de uma s\u00f3 a\u00e7\u00e3o. Embora existam as tradicionais paradas em postos de gasolina, atendentes de bares de beira de estrada, \u00f4nibus escolares cheios de crian\u00e7as, \u00e9 a persegui\u00e7\u00e3o, fren\u00e9tica e obsessiva, no mais amplo e \u00e1rido deserto, que \u00e9 o centro da narrativa. Durante todo o filme, perguntamos, insistentemente,&nbsp;<em>por qu\u00ea?<\/em>&nbsp;<em>quem \u00e9 o motorista do caminh\u00e3o de quem sequer vemos a face? o que o vendedor fez para merecer isso?. <\/em>Somos&nbsp;frustrados toda vez que nossa credulidade ing\u00eanua sup\u00f5e ter encontrado uma resposta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme, depois entendemos, n\u00e3o \u00e9 sobre porqu\u00eas, mas sobre a experi\u00eancia visceral e aut\u00eantica, sem motivo ou raz\u00e3o, de vivenciar o desespero, a ang\u00fastia e a loucura que vai tomando conta do personagem principal. Cinema minimalista, Spielberg nos ensina, n\u00e3o trata apenas de minimalismo visual, mas tamb\u00e9m narrativo, em que o diretor, intencionalmente, nos faz abdicar de uma postura padr\u00e3o gorda e prenhe de expectativas diante da experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica, e nos atrela&nbsp;a, no m\u00e1ximo, uma sensorialidade b\u00e1sica e instintiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O diretor Sidney Lumet (1924-2011), j\u00e1 em 1957, nos ofereceu o minimalista e genial <em>12 homens e uma senten\u00e7a<\/em> (12 Angry Men). O filme todo se passa dentro de uma claustrof\u00f3bica sala de j\u00fari.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/fredlopes.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/12-angry-men.jpg\" alt=\"12 homens e uma senten\u00e7a\" class=\"wp-image-174\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Sidney Lumet &#8211; 12 homens e uma senten\u00e7a (1957)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um jovem porto-riquenho \u00e9 acusado de matar o pr\u00f3prio pai. Doze jurados decidir\u00e3o seu destino. Onze acham que, dadas todas as massacrantes e aparentemente \u00f3bvias evid\u00eancias, o garoto \u00e9 indubitavelmente culpado. Apenas um, o Jurado 8 (Henry Fonda, brilhante), discorda da opini\u00e3o dos outros. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de imaginar que o Jurado 8 sofrer\u00e1 todo tipo de ataque verbal e ser\u00e1 v\u00edtima de sarcasmos e ironias para defender seu ponto de vista: afinal, n\u00e3o sabemos&nbsp;<em>mesmo<\/em> se o garoto \u00e9 culpado. Sozinho, e debaixo de uma chuva de agress\u00f5es, o Jurado 8 consegue virar a cabe\u00e7a dos outros jurados, que acabam absolvendo o jovem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme \u00e9 intelectualmente t\u00e3o intrigante e absorvente que nos esquecemos que se passa inteiramente dentro de uma saleta. N\u00e3o percebemos que os doze l\u00e1 dentro est\u00e3o vestindo praticamente a mesma roupa (camisas brancas), e que apenas por mais duas outras vezes a c\u00e2mera se desloca de loca\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio e no final do filme. O minimalismo, aqui, \u00e9 de outra natureza, e oposto ao minimalismo de <em>Encurralado:<\/em> muitos personagens em um ambiente limitado, em oposi\u00e7\u00e3o a poucos personagens em um ambiente ilimitado. No entanto, novamente percebemos a ideia de restri\u00e7\u00e3o e limita\u00e7\u00e3o de algum elemento do filme, reduzindo-o a um m\u00ednimo conceb\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O minimalismo no cinema ir\u00e1 nos brindar com outras obras primas, em que quase n\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logos, ou quase n\u00e3o h\u00e1 a\u00e7\u00e3o, ou quase n\u00e3o h\u00e1 descanso, ou quase n\u00e3o h\u00e1 som, ou quase n\u00e3o h\u00e1 sil\u00eancio, ou quase n\u00e3o h\u00e1 alguma coisa que nos parece natural em todos os filmes. As possibilidades do minimalismo cinematogr\u00e1fico s\u00e3o as mais ricas e mais f\u00e9rteis do que todos os outros minimalismo juntos, uma vez que o cinema incorpora e faz uso de todas as artes anteriores.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Avalia\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O minimalismo art\u00edstico se caracteriza pela restri\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria de um ou mais elementos constitutivos de uma dada forma de arte, e pela utiliza\u00e7\u00e3o daquilo que o artista percebe ser um &#8220;bloco de constru\u00e7\u00e3o&#8221; de seu edif\u00edcio art\u00edstico. Nem tudo em uma determinada cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9 essencial, mas aquilo que \u00e9, o \u00e9 por sua natureza dominante em rela\u00e7\u00e3o a todos os outros elementos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nem sempre restri\u00e7\u00f5es sobre o vasto campo das possibilidades art\u00edsticas \u00e9 frut\u00edfero. Quando o s\u00e3o, nossa consci\u00eancia se expande diante de uma reflex\u00e3o sugerida, talvez imposta, sobre um \u00fanico e determinado elemento. Frequentemente, a reflex\u00e3o \u00e9 mesmo sobre o tempo e o espa\u00e7o, e como s\u00e3o manipulados pela obra de arte. O minimalismo, assim, \u00e9 quase que uma instancia\u00e7\u00e3o art\u00edstica da filosofia, a materializa\u00e7\u00e3o de uma longa medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O minimalismo, como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 arte rococ\u00f3, \u00e9 bem-vindo. Como express\u00e3o do niilismo, chega a ser in\u00f3cuo ou at\u00e9 indesejado. O minimalismo \u00e9 tamb\u00e9m uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 arte intuitiva, impressionista, pois exige que o artista pense, muitas vezes \u00e0 maneira de um matem\u00e1tico, um analista, ou um anatomista que disseca a pr\u00f3pria arte at\u00e9 chegar n\u00e3o no osso, mas no tutano de uma expressividade elementar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A arte minimalista, por outro lado, tamb\u00e9m sofre cr\u00edticas, e cr\u00edticas bem fundamentadas. O premiad\u00edssimo m\u00fasico brasileiro Fl\u00f4 Menezes (1962-), argumenta em defesa de uma <em>arte maximalista<\/em>, em que o artista, longe de imp\u00f4r restri\u00e7\u00f5es, deveria&nbsp;criar uma obra fenomenologicamente complexa, em que a simultaneidade dos eventos e dos objetos seja trabalhada sem artificialismos. Em <a href=\"http:\/\/destruindopianos.blogspot.com.br\/2012\/03\/entrevista-com-flo-menezes.html\">uma entrevista<\/a>, Menezes critica o minimalismo musical americano, descrevendo-o dilu\u00eddo e previs\u00edvel. No entanto, o pr\u00f3prio design do <a href=\"http:\/\/flomenezes.mus.br\/\">website<\/a> de Menezes \u00e9 minimalista, o que nos indica que, aparentemente, minimalismo e maximalismo n\u00e3o s\u00e3o posturas contradit\u00f3rias, mas op\u00e7\u00f5es nas m\u00e3os do artista.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como \u00e9 de praxe, conhecer a origem da palavra pode lan\u00e7ar alguma luz nos primeiros passo da caminhada, como uma fr\u00e1gil lanterna apontada para uma longa estrada que se trilha pela noite. Minimalismo vem de minimus, o superlativo da palavra latina parvus &#8211; pequeno, pouco. 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